Os medos são necessários. Há poucos dias atrás encontrei-me a explicar isto à filha de um grande amigo meu. Os medos são necessários.

É necessário que os tenhamos, de forma a que possamos aprender a conviver com eles, a superar os que devem ser superados, a respeitar os medos que devem ser superados.

Depois há os medos irracionais. E esses são, essencialmente, irracionais. Sem razão.

Pedro Rebelo Medos Irracionais Teletubbies

Ter medo do escuro, a nictofobia, só por si, é algo de irracional. Se existir uma razão para isso, então sim, terá sentido. Quando se diz às crianças que no escuro se esconde o papão, que nos escuro vivem as bruxas e os demónios, pudera, é natural que as crianças tenham medo do escuro… As crianças e não só.

Mas nestes casos, bem vistas as coisas, o medo não é do escuro mas sim das outras coisas que estupidamente se associam a este.

Como o medo do escuro, existe um sem numero de outros medos, irracionais, que atormentam as pessoas, muitas vezes desde a mais tenra idade e muitas vezes, ao longo de toda a vida.

Quando temos consciência dos mesmos podemos, digo eu que não sou psicólogo, tentar fazer algo para ultrapassar esses medos. Em criança, o confronto directo com as realidades que nos aterrorizam talvez não seja a melhor opção. Talvez faltem estruturas emocionais para amparar as emoções… Talvez, não sei.

Já em adulto, bem, se feito em consciência, não tenho nada a apontar. De peito aberto, inspira, diz lá o que te mede medo.

Os Teletubbies. Os Teletubbies metem medo.

Há já uns anos apresentei estas tenebrosas criaturas à minha filha de forma a que ela não fosse apanhada de supresa. Antes de lhas mostrar disse-lhe a minha opinião sobre elas e a relação de distância que assumidamente com elas quero manter.

A Patrícia sorriu, riu e depois, ao ver os Teletubbies, voltou a rir dizendo que era uma parvoíce, que os Teletubbies não faziam mal a ninguém.

Agora, finalmente, alguém viu o mesmo que eu, alguém percebeu e entendeu o medo que se esconde por trás daquelas criaturas que dão pelos nomes de Tinky-Winky, Dipsy, Laa-Laa e Po (que raio, até os nomes nos fazem tremer).

Obrigado Christopher G. Brown por o teres mostrado ao mundo neste video incrível. Obrigado por me teres levado a este confronto. Obrigado porque assim já há uma razão para este medo parvo, irracional.

Sim, que isto de ser pai, tem muito que se lhe diga… E como ser pai não é só receber mimos e beijos doces, pareceu-me uma altura tão boa como qualquer outra para exercer outra das funções de pai: a de educador.

Confesso que já não sei porquê, mas esta manhã, ao entrarmos para o carro, referi a expressão Crazy Train. Daquelas coisas que eventualmente não teria qualquer sentido considerando que, nem de perto nem de longe, falávamos de comboios.

Pergunta-me a Patrícia:

“Pai, de que é que estás a falar? O que é o Crazy Train?”

Ora bem, este é um daqueles momentos verdadeiramente estranhos mas que podem (e certamente acontecem) acontecer na vida de qualquer pai. Chegou a hora de explicar à Patrícia o que é o Crazy Train.

São 8 da manhã. Pai que é pai faz aquilo que tem que ser feito. Saca do telefone, vai ao Youtube e…

“Filha, este “avozinho” continua a dar música a muita gente. Importante é aprender que, independentemente do tipo de música pela qual se tem preferência, há boa música em todo o lado, em todos os géneros. Esta por exemplo, é uma boa música.”

A explicação sobre a paranóia da Guerra Fria, as armas nucleares, o Nash equilibrium e o John von Neumann ficam para mais tarde, com tempo.

Ainda assim, fiquei com muita vontade de propor à nossa filha uma sessão de cinema caseiro este fim de semana: Cobertores, pipocas e Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb.

“Nos espectáculos não há tendinites .”. Esta frase ficou comigo até ao final da exibição de A perna esquerda de Tchaikovsky, a noite passada no Teatro Camões.

Tendinites pode haver, em qualquer situação. E é por isso que Barbora Hruskova cose os elásticos das suas pontas, por fora, para tentar evitar as tendinites. Nos espectaculos, ela ata os elasticos, mas nos ensaios… Os ensaios são espaço na terra, espaço neste tempo, neste planeta (nos ensaios talvez não se atinja a perfeição e essa sim, é de outro planeta).

É enquanto fala connosco (os que estamos na Plateia) e com os seus pés, que Barbora Hruskova se reencontra consigo, com a bailarina que o ano passado anunciara a sua despedida do ballet clássico, quando interpretou pela última vez Giselle, obra seminal entre os bailados brancos onde o fantástico, a emoção, a loucura e a morte, podem servir como o quase perfeito requiem para quem abandona o palco. As tendinites, tenham elas o nome que tiverem, surgem quando menos se espera…

O seu corpo não é feito para dançar… Assim lhe diziam os pais, que não mentiam. E cujos corpos, esses sim, eram feitos para dançar. Deusas… Será essa a primeira tendinite. A primeira de muitas que uma vida frente ao espelho garante. Mas nos espectáculos não há tendinites não é?

42 anos. 42 anos em que Sonho de Uma Noite de Verão, Carmina Burana e O Lago dos Cisnes (o lindo, o sublime, o maldito Lago dos Cisnes) tanto a fez correr… A ela, uma bailarina que desde os 14 anos prometeu não mais correr… As tendinites, malvadas, podem ter muitos nomes, muitas formas.

Em palco, frente ao um espelho que desta vez não está lá, Barbora Hruskova faz uma viagem por toda a sua vida, pela vida de todas as bailarinas, levando-nos com ela, não na mala mas num bolso, ao peito, onde com a cabeça de fora, agarrando com força para não cair (tal é o ritmo por vezes), vivemos cada minuto como se fosse um momento sem tempo, como se lá estivéssemos mesmo, a cair com ela, quando uma dor na perna esquerda, uma qualquer tendinite, só nos faz querer perguntar “Porquê Tchaikovsky? Não é perfeita para ti?”

Tendinites ao piano?

Que interessa isso agora? Não é Tchaikovsky que ali está. É Mario Laginha. E se Barbora Hruskova é perfeita para Mario Laginha. Ou será que é ao contrário?

Os pianistas também sofrem com tendinites e certamente também os afinadores de pianos, mas agora não é hora de pensar nisso. O público está ali, a olhar, a sentir cada tecla, mesmo quando a força é tanta que estas parecem querer saltar, ganhar vida própria. Que par perfeito. Vê-se, sente-se em cada momento partilhado, em cada parte de um monólogo que nunca o poderá ser pois o pianista responde, provoca e quando é caso disso, quase sempre, acaricia suavemente a bailarina com a sua música, de outro planeta.

Tchaikovsky e tendinites - Pedro Rebelo

Ontem fomos ao ensaio geral de A perna esquerda de Tchaikovsky. A Susana, na sua incansável busca por ações de boa vontade, entendeu que seria uma boa altura para apresentarmos a Patrícia ao bailado. Um espectáculo solidário em que a receita do mesmo converteu a favor de algumas instituições que certamente irão fazer bom uso do que recolheram. A elas o meu muito obrigado. Aos artistas, bem, para vocês deixo-vos todas as palmas que bati. Valendo o que valem, nada mais vos poderia deixar que chegasse perto daquilo que nos deixaram a nós.

Muito mais que isso ao que parece. Aquilo que alguns veem como mais uma exploração da sexualidade na Cultura Pop, outros estão já a ver como uma exploração da deficiência física por essa mesma Cultura Pop.

Viktoria Modesta Sexualidade e Cultura Pop
Fotografia de Ewelina Stechnij / Chilli Media,

Eu, volto a lembrar as aulas do Professor Jorge Martins Rosa e todas as leituras que fiz em torno da Cibernética e da evolução do Humano, do Norbert Wiener à National Geographic. Volto a pensar e a perguntar, se não será já hora de se debater este tema a sério…

Viktoria Modesta diz:

When people say, ‘How is she different from some other female artist out there with hardly any clothes on’… Well yeah, that’s exactly the point. I’m human, I’m just like everybody else.

Nota: este video foi realizado por Saam Farahmand no âmbito da Channel 4 Born Risky Initiative.

E vocês? O que pensam sobre o assunto?

Sim, volto aos livros (aos tais que de uma forma ou outra mudam vidas) e desta feita recordando Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Porquê? Porque haverá sempre quem não perceba certas coisas, haverá sempre quem não queira perceber.

Pedro Rebelo Admirável Mundo Novo

Bem, deixo para tais a mais conseguida das bem-aventuranças (Mateus 5:3 na minha humilde opinião) e continuo com o Admirável Mundo Novo. E não, não me vou alongar em dissertações filosóficas sobre a influência que o livro possa exercer sobre quem o lê. Utopias e Distopias são temas que muito me agradam e sobre os quais tenho opinião formada, amplamente discutida noutros fóruns e que certamente também terão lugar aqui no browserd.com mas, como referi, não será neste post.

O Admirável Mundo Novo vem mais a propósito dos tais pobres no espirito, os que não entendem por não quererem entender.

Por alguma estranha razão, o post que escrevi sobre 10 livros que mudaram a minha vida, parece ter dado a alguns a ideia de que certa vida me terá passado ao lado. Não que me preocupe em demasia com a ideia que das minhas palavras possam fazer os mansos ou mesmo os aflitos, mas sinceramente, não sou de ficar calado, e tal como Aldous Huxley, escrevo por vezes a posteriori palavras que clarifiquem ideias anteriores, mesmo tendo a perfeita noção de que para todos além dos visados, aumento a complexidade do raciocínio inicial. Em abono da verdade, para os visados também mas uma vez mais, com isso não me preocupo em demasia.

Assim, sem mais delongas, e seguindo os conselhos que Aldous nos deixou 14 anos após ter escrito Admirável Mundo Novo, fiquem com “Falhas”, na sua versão original, no album 78/82 dos Xutos & Pontapés, que tantas vezes ouvi quando tudo à volta eram gritos e discussões.

Consigo imaginar sorrisos nos lábios de alguns e outras feições noutros tantos. Agradam-me os primeiros e aos segundos, bem, nas palavras de um famoso talvez Maçon (porque outras ideias já por demais aqui foram expostas), si monumentum requiris, circumspice.