Não é que ande a carregar caixotes ou a cavar a horta como se não houvesse amanhã. Nada disso. Mas ainda assim, sinto que já me dava jeito um ou dois dias de sofá, de mesa farta, cheia daquelas coisas boas que não fazendo bem, são deliciosas, de musica a tocar de manhã até à noite e sem grandes preocupações… Sinto que já me dava jeito o Natal.

Peanuts. O Natal no aniversário

E este ano, um bocadinho do Natal chegou mais cedo, com uma das prendas de aniversário que a Susana e a Patrícia me ofereceram, um dos volumes de Peanuts, a obra completa.

Peanuts e o Natal? Claro. Há razões para isso.

Os Peanuts, Charlie Brown, Lucy, Sally, Linus, Schroeder, Peppermint Patty e obviamente, o Snoopy, sempre me fizeram lembrar o Natal. Talvez porque tenha visto, quando miúdo, o episódio especial de Peanuts intitulado A Charlie Brown Christmas, numa daquelas férias de Natal em que não havia muito mais que fazer (quando o Inverno era a sério) que ficar em casa e ver televisão. Talvez porque A Charlie Brown Christmas de Vince Guaraldi seja um dos meus álbuns de jazz favoritos (por sua vez, talvez porque me lembre de ouvir este álbum como a banda sonora do referido episódio dos Peanuts).

Seja porque razão for, os Peanuts lembram-me Natal e Natal lembra-me esse desejo de uns momentos de sossego (sim, depois de toda a azáfama da noite de Natal, do jantar em família, das prendas…), em que paro, ponho um disco a tocar, abro um livro e, com um copo de vinho na mão, agradeço pelo que tenho.

O Natal ainda está longe (quando a vontade é muita, o tempo parece custar mais a passar) mas com esta prenda que elas me deram, dia a dia, ele vai ficando mais perto, mais depressa, como se já estivesse a saborear uns minutos daqueles dias especiais a cada página que viro.

Obrigado miúdas. Já vos disse que adorei a prenda?

Assim como percebi que há muito quem não conheça o significado da palavra eclético, tenho ao longo do tempo percebido que também a expressão advogado do diabo é muitas vezes aplicada sem uso do correcto entendimento da mesma.

Há cerca de 25 anos atrás, no final de uma noite daquelas que só se podem ter aos 15 anos, chegava a casa de um amigo e estava com particular disposição para contrariar. Sabem como é, aqueles momentos em que resolvemos ser do contra porque sim, porque é próprio da juventude, porque a vida não nos corre como gostaríamos ou só porque faz parte da nossa natureza

Perante alguns argumentos de valor, pelo menos eu assim os entendia, e perante a minha clara e declarada vontade de seguir estudos na área do Direito, a mãe do meu amigo (que nesses tempos muito aturava os amigos do filho), emprestou-me um livro dizendo que eu daria um bom advogado do diabo. Uns anos mais tarde, disse-me que eu nunca lho tinha devolvido, que eu o perdi. Talvez, não me lembro, mas acredito que sim.

Pedro Rebelo O Advogado do Diabo

O Advogado do Diabo do Morris West

O Advogado do Diabo é uma obra escrita por Morris West em 1959 quando o autor, australiano, se encontrava em Itália a trabalhar como correspondente do Daily Mail no Vaticano. Eventualmente terá sido essa proximidade com a Igreja que o terá inspirado para esta e para as restantes obras em torno da temática tais como As Sandálias do Pescador, Os Palhaços de Deus e Lázaro.

Li o livro na altura e confesso, já me falham detalhes da história mas, foi de tal forma marcante para mim, que a expressão advogado do diabo é recorrente no meu discurso, muitas vezes utilizada em jeito de auto definição, justificando, da forma mais sincera possível, certas das minhas posições, muitos dos meus questionamentos.

A expressão advogado do diabo é a forma popular de referência a um membro da hierarquia Católica, o Promotor Fidei (Promotor da Fé), oficial da Congregação da Causa dos Santos, que desde 1588 é a prefeitura responsável pelos processos que levam à canonização dos santos.

Promotor Fidei, figura abolida da Igreja em 1983 pelo Papa João Paulo II, era um elemento do clero, versado em Direito Canónico, e que tinha como missão analisar de forma céptica mas muito próxima e detalhada, todas as possíveis falhas e incongruências na argumentação que sustentava os processos de canonização, desde a verificação de provas dos possíveis milagres às falhas de carácter dos indivíduos em causa.

No livro de Morris West, o advogado do diabo é um padre inglês, enviado a uma pequena cidade no sul da Itália para questionar o pedido de canonização que os habitantes dessa cidade fizeram para o padre Giacomo Nerone a quem são atribuídos vários milagres.

Na sua investigação, o advogado do diabo descobre que afinal Giacomo Nerone era um desertor do exercito inglês na Segunda Guerra Mundial e que, entre outros pecados, tinha um filho ilegítimo com uma mulher da vila.

Mas o advogado do diabo, sendo um padre é também um homem e, ainda que tendo sido escolhido para a função pela sua capacidade de distanciação (como refere o Cardeal que o nomeou: “nunca amou uma mulher, nem odiou um homem, nem sentiu piedade por uma criança”), não consegue evitar que no processo se criem relações com outros que, potenciadas pelo seu estado de saúde (sofria de uma doença sem cura que lhe degenerava o corpo) e pela reflexão sobre o que seria uma vida digna, lhe colocam dilemas a que o seu distanciamento sempre o tinha poupado.

O advogado do diabo hoje

Nos dias de hoje, a expressão advogado do diabo é usada muitas vezes como referência a quem argumenta contra determinado ponto de vista, sem particular crença ou objectividade, só pelo argumento em si. Não será o entendimento mais correcto. O advogado do diabo, apresentado de forma simples, será aquele que argumenta contra determinada posição, esmiuçando o mais possível todos os pontos que a fortaleçam, muitas vezes com o intuito de a testar e identificar potenciais falhas na sua estrutura.

Este fim de semana, na livraria da Cinemateca, encontrei O Advogado do Diabo. Não pensei duas vezes. A mãe do meu amigo, essa minha amiga, vai receber uma prenda. Mas acho que só depois de eu o ler outra vez.

p.s. E não, por favor, não digam que o advogado do diabo “é aquele do Keanu Reeves”. Se tanto, digam que é o Al Pacino.

 

Depois do post sobre os Vingadores: A Era de Ultron não resisti a ir procurar entre os meus livros de banda desenhada, as várias presenças da Viuva Negra. Scarlett Johansson à parte, a Viuva Negra é, como referi no outro post, um dos meus personagens femininos favoritos em todo o universo Marvel.

Encontrei o #1 do Black Widow Volume 4, lançado em 2010, com argumento de Marjorie Liu e desenho de Daniel Acuna e fiquei com leitura para o final da noite…

Black Widow Vol 4 #1 Pedro Rebelo

Depois resolvi procurar um pouco mais por ela, eventualmente encontrar um bom preço por outros volumes que não comprei na altura. Foi então que descobri no site Bulimia.com uma versão alternativa da Viuva Negra. Em abono da verdade, descobri uma versão alternativa de uma série de heróis…

Como seriam os super-heróis se tivessem corpos normais? Sem as curvas impossíveis dos corpos femininos ou os abdominais à Cristiano Ronaldo super-vitaminado dos personagens masculinos?

Black Widow not a Barbie

Numa abordagem bem humorada aos problemas que a imitação de certos estereótipos podem causar, o Bulimia.com deixa-nos com algumas capas de comics em que os heróis possuem corpos desenhados com proporções mais normais, mais humanas.

Parece-me uma estratégia de valor, uma forma de adereçar ao público certo, um problema sério nos dias que correm.

E vocês? Que vos parece? Quanto à estratégia e quanto aos comics claro.

 

Depois de um primeiro poster promocional de Vingadores: A Era de Ultron, onde a Viuva Negra aparecia meramente como personagem de suporte, eis que a Marvel lança uma série de novos posters de promoção ao filme, destacando cada um dos Vingadores.

Viuva Negra em Vingadores: Era de Ultron - Pedro Rebelo

O poster da personagem interpretada por Scarlett Johansson, Natasha Romanova para os fãs mais aguerridos, tem sido no entanto tema de debate na Internet, uma vez que a Viuva Negra aparece com um novo fato, mais electrizante, de alguma forma recordando os desenhos do personagem na década de 70 do século passado, onde esta tinha braceletes dourados nos pulsos, a partir dos quais lançava os seus “ferrões”.

Este “upgrade” ao visual do personagem em Vingadores: A Era de Ultron, deixa uma vez mais os fãs esperançosos de que esteja para breve algo mais, quem sabe um filme da Viuva Negra, mas tudo aponta para que a próxima grande estreia da Marvel com um personagem feminino à cabeça seja Captain Marvel em Novembro de 2018.

Até lá, para todos que como eu, são fãs da Viuva Negra, resta-nos as participações do personagem neste Vingadores: A Era de UltronAvengers: Infinity War Part 1 a estrear em Maio de 2018.

Quanto aos posters, vejam todos na página da Marvel no Facebook.

Sim, volto aos livros (aos tais que de uma forma ou outra mudam vidas) e desta feita recordando Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Porquê? Porque haverá sempre quem não perceba certas coisas, haverá sempre quem não queira perceber.

Pedro Rebelo Admirável Mundo Novo

Bem, deixo para tais a mais conseguida das bem-aventuranças (Mateus 5:3 na minha humilde opinião) e continuo com o Admirável Mundo Novo. E não, não me vou alongar em dissertações filosóficas sobre a influência que o livro possa exercer sobre quem o lê. Utopias e Distopias são temas que muito me agradam e sobre os quais tenho opinião formada, amplamente discutida noutros fóruns e que certamente também terão lugar aqui no browserd.com mas, como referi, não será neste post.

O Admirável Mundo Novo vem mais a propósito dos tais pobres no espirito, os que não entendem por não quererem entender.

Por alguma estranha razão, o post que escrevi sobre 10 livros que mudaram a minha vida, parece ter dado a alguns a ideia de que certa vida me terá passado ao lado. Não que me preocupe em demasia com a ideia que das minhas palavras possam fazer os mansos ou mesmo os aflitos, mas sinceramente, não sou de ficar calado, e tal como Aldous Huxley, escrevo por vezes a posteriori palavras que clarifiquem ideias anteriores, mesmo tendo a perfeita noção de que para todos além dos visados, aumento a complexidade do raciocínio inicial. Em abono da verdade, para os visados também mas uma vez mais, com isso não me preocupo em demasia.

Assim, sem mais delongas, e seguindo os conselhos que Aldous nos deixou 14 anos após ter escrito Admirável Mundo Novo, fiquem com “Falhas”, na sua versão original, no album 78/82 dos Xutos & Pontapés, que tantas vezes ouvi quando tudo à volta eram gritos e discussões.

Consigo imaginar sorrisos nos lábios de alguns e outras feições noutros tantos. Agradam-me os primeiros e aos segundos, bem, nas palavras de um famoso talvez Maçon (porque outras ideias já por demais aqui foram expostas), si monumentum requiris, circumspice.