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Blade Runner: Batty, o filho do Homem?

E o que aconteceria se vocês vissem o Filho do Homem subir para onde estava antes?

João 6:62

Roy Batty, o lider natural dos Replicantes rebeldes, para além da figura de força e resistência sobre-humanas e da sua inteligência ao nivel da genialidade, é também, na minha opinião, a personificação de um imaginário religioso que, ainda que confuso diacronicamente pelo filme, enquadro em vários momentos da imagética cristã.

Os Anjos

Na busca pelo seu criador, Roy Batty encontra Chew, designer genético, fazedor de olhos, e interage com o mesmo parafraseando o poeta americano William Blake:

Fiery the Angels fell,
Deep thunder rolled around their shores,
Burning with the fires of Orc.

Note-se porém a diferença para o poema original:

Fiery the Angels rose, & as they rose deep thunder roll’d
Around their shores: indignant burning with the fires of Orc
And Bostons Angel cried aloud as they flew thro’ the dark night.

É aqui que surge a primeira referência a anjos. Mas os anjos que Roy refere são outros, são os anjos caídos. Anjos tal como ele, de volta à Terra, contrariamente ao plano superior do seu criador, num acto de rebelião.

Ascensão e falsos Deuses

Roy continua a sua demanda em busca de respostas, não só para si, mas também para os seus numa referência claramente messiânica, e ascende a Tyrell, criador. Ascender não é usado em vão. O elevador leva Roy à presença de Tyrell, o criador do novo mundo, o que se encontra para lá das nuvens, o que vê o Sol.

Tyrell Corporation Los Angeles

O edifício da Tyrell Corporation é o único em toda a cidade onde é possível vislumbrar o astro rei. No seu topo. Mas Tyrell não é endeusado só por essa imagem. A cidade parece ser construída para si, parece quase viver para si, em sua volta. Tyrell é assim um Deus. E é esse mesmo Deus que diz a Batty quando este o esclarece da razão da sua presença:

The light that burns twice as bright burns half as long. And you have burned so very very brightly, Roy. Look at you. You’re the prodigal son. You’re quite a prize!

“Tu és o filho pródigo.” O criador apresenta assim, a sua criação, como seu filho. De Querubim de Ezequiel a Cristo. O que se segue poderia justificar a oposição a esta perspectiva. O Filho não mata o Pai. Se tanto, seria o Homem, Sua criação também, que (a considerar Zaratustra tal como o declarou Friedrich Nietzsche em Also sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen) mataria Deus, e nunca o Seu filho.

O que se passa a seguir pode levar a uma nova interpretação. Batty continua a interpelar o “pai”, dizendo-lhe em tom de confissão, que fez coisas questionáveis (uma vez mais, a revelação da humanidade) ao que Tyrell lhe responde que foram também coisas memoráveis e que a seu tempo, as valorizará. É então que Batty termina a sua interjeição afirmando:

Nothing the God of biomechanics wouldn’t let you in heaven for.

Mas que Deus é este de quem ele fala? Não seria Tyrell certamente. Porque Tyrell não o deixou entrar no Paraiso, não lhe deu o descanso procurado, não o tornou Homem. Como refere Mark T. Conard em “The Philosophy of Neo-Noir”:

As acções de Batty mostram a sua concordância com a declaração de Satre: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido.”

E Batty toma a face de Tyrell nas suas mãos, beija-lhe os lábios e esmaga-lhe o crânio tirando-lhe também os olhos. Este não era afinal o seu Deus.

Roy Batty e Tyrell no Blade Runner

A cena foi afinal, uma representação dramática de um complexo de Edipo que fica por resolver. O pai não queria perder o controlo, o filho assume a sua independência à força.

Como escreve Lisa Yaszek no The self wired: technology and subjectivity in contemporary narrative, “literalmente matando o homem que lhe dera origem”.

Já aqui vos deixo muitas pistas sobre o caminho que este texto leva. A ideia é clara, ainda que não simples. Arrojada, improvável mas ainda assim, capaz de deixar semente em espera que aguas a façam germinar.

A ver vamos se amanhã se esclarece…

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Blade Runner: Uma abordagem

O que é verdadeiramente ser humano? Quais as consequências morais de fazer o papel de Deus? E quando nos esquecemos delas, quais as implicações disso na nossa vida?

Blade Runner - O inicio

No inicio do séc. XXI, a TYRELL CORPORATION levou a evolução dos robots até à fase NEXUS – um ser virtualmente idêntico a um humano – conhecido como Replicante. Os Replicantes NEXUS 6 eram superiores em força e agilidade, e eram pelo menos iguais em inteligência, aos engenheiros genéticos que os criaram. Os Replicantes eram usados fora da Terra como mão-de-obra escrava, na perigosa exploração e colonização de outros planetas.

Depois de um sangrento motim de uma unidade de combate de Replicantes NEXUS 6 numa colónia fora da Terra, os Replicantes foram declarados ilegais no planeta – sob pena de morte. As unidades especiais de polícia – Unidades de Blade Runners – tinham ordens para atirar a matar, assim que detectassem qualquer Replicante transgressor. A isto não era chamado de execução. Era chamado de reforma. Los angeles 2019.

Um pequeno grupo de Replicantes (ciborgues artificialmente criados através da engenharia genética, mais próximos dos clones do que dos robôs e banidos da terra depois de uma revolta sangrenta), liderado por Roy Batty, regressa à Terra em busca do segredo da vida, algo que lhes permita ultrapassar o limite de 4 anos com que os seus corpos são programados. Nessa altura, um antigo Blade Runner (policias especialmente treinados como detectives e caçadores de recompensas), Rick Deckard, é chamado para voltar ao activo e reformar (do inglês retiring) de vez, os Replicantes rebeldes.

A cena inicial do filme mostra-nos bocas-de-fogo que explodem sem parar numa noite de luzes. A associação a uma realidade pós-apocalíptica é imediata, sem necessidade de expressa declaração. As ruas da cidade mostram-se imundas, repletas de sub-gente (como lhes chama Bryant, chefe da Unidade Blade Runners quando diz a Rick Deckard ‹‹You know the score, pal. If you’re not cop, you’re little people.››).

Sabemos que tem que haver quem viva outras vidas pois as sensações de sufoco e atrofio que as imagens dos prédios em volta nos dão só podem vir de mais gente, que imaginamos parada, nos sofás, frente e ligada a máquinas. No entanto, não entendo nisto uma construção da tecnologia como sendo por natureza maléfica. Deckard diz aliás em certa altura:

Replicants are like any other machine. They can be a benefit or a hazard.

Como entende Jyanni Steffensen em Decoding Perversity: queering cyberspace, a crescente dificuldade em destrinçar os humanos dos Replicantes vai minando a dicotomia positivo/negativo de natureza/tecnologia.

Olhos. Janelas da alma

Blade Runner - Olhos Janelas da Alma

Um olho gigantesco faz a ponte para a cena seguinte mas serve ao mesmo tempo para nos chamar à atenção desde logo, para a importância do globo ocular no desenrolar da história. Se no Frankenstein de Mary Shelley, o olhar da criatura mostra a sua inumanidade, em Blade Runner é  através do olhar que a mesma pode ser comprovada.

Os Replicantes são detectados através de uma máquina, Voight-Kampff,  que mede algumas das emoções humanas através de respostas biológicas como a dilatação involuntária da íris, uma versão reminiscente da máquina de Turing. Os Replicantes usam os olhos só para ver enquanto os humanos expressam por eles algumas das suas emoções. A ausência de tais emoções, particularmente, as provocadas pelas memórias, é a confirmação da chamada condição inumana.

A condição inumana e a representação de humanidade

A condição inumana dos Replicantes é talvez a maior representação de humanidade no filme. Os Replicantes colocam questões filosóficas sobre a sua existência. Querem, de certa forma como os humanos, saber quem são e o que fazem aqui. Marcel Danesi em Messages, signs, and meanings: a basic textbook in semiotics and communication diria que é  uma consciência do Eu a despontar.

Também o surgir das emoções, memórias e até as fotografias que as sustentam, elevam a névoa na distinção entre homem e máquina. Veja-se o caso de Rachel, a Replicante femme fatale , ícone da problemática Replicante, nunca sendo o que parece, por quem Deckard acaba por se apaixonar. Rachel não tem conhecimento de ser um Replicante. É na relação com Rachel que Deckard se interroga pelo contrário. A sua falta de sentimento, a sua frieza para com a função que lhe foi incumbida, de “reformar” os Replicantes, será porventura sinal dele próprio estar além da humanidade.

Mais humanos que os humanos

Também a representação dos humanos como menos humanos do que seria de esperar não é inocente. Veja-se quando de entre os humanos temos Gaff o polícia, que é coxo, Chew o fabricante de olhos, que parece saído de um livro fantástico ou J.F. Sebastian, o engenheiro genético que sofre de envelhecimento acelerado (para não referir novamente as criaturas mutantes que controlam as ruas).

É entre os Replicantes e não entre os humanos, que se visualiza um conceito de família. Eles sofrem uns pelos outros, na perca e na paixão que os leva a agir em busca do seu objecto de desejo: vida.

Mas ao mesmo tempo que estes Replicantes parecem ser verdadeiros humanos, eles parecem ser também, paradoxalmente “Mais humanos que os humanos” (More human than human é o slogan, a assinatura da Tyrell Corporation, criadora dos Replicantes.) principalmente o seu líder, Roy Batty.

A ver vamos se amanhã continuamos a conversa.

p.s. Se eu podia escrever sobre qualquer outra coisa hoje? Podia. Mas não seria a mesma coisa…

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A sério? Woody Allen?

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Certo. Toda a gente sabe que eu adoro Woody Allen. Mesmo. E aquilo que mais adoro nele é garantidamente o seu sentido de oportunidade, aquele do qual não tem qualquer consciência… Genial…

Não. Não vou comprar. Era só o que me faltava… Ainda me deitava da ponte abaixo… Irra..

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James Bond Skyfall

A nossa ideia de ver todos os filmes de James Bond até à estreia de Skyfall já foi por agua abaixo… Bem, já vimos um, o primeiro, James Bond, Dr. No. É um começo certo?

James Bond Skyfall no browserd.com

Como já estou certo de que tão cedo não temos disponibilidade para ver mais, ao menos que nos calhe o dito Skyfall e se tudo correr bem, pode já ser no próximo fim-de-semana que não me importo nada…

Há já muito que um trailer de James Bond não me causava grande impacto ou pelo menos, não me despertava tanto interesse. Com Skyfall parece haver um back to basics, um James Bond mais negro?

A ver vamos se o filme cumpre o prometido.

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Bond. James Bond. O primeiro.

Foi dia de Bond. James Bond. Pelo menos lá por casa.

Decidimos rever toda a série de filmes em torno do mais famoso agente secreto da história do cinema e, como podem imaginar, será tarefa para durar algum tempo e como tal, mais vale começar o quanto antes. Como o principio é sempre um bom começo, o fim de tarde de Domingo foi dedicado a Dr. No, o primeiro filme de James Bond.

Dr No Poster Original

Tal era a certeza de que James Bond seria um sucesso, que os cartazes publicitários do filme anunciavam claramente: “O primeiro filme de James Bond”. Sim, o primeiro de muitos. Muitos filmes, muitos James Bond’s.

Voltando a Dr. No, corria o ano de 1962 quando estreou, baseado no livro de Ian Fleming que tinha o mesmo nome, editado 4 anos antes. O nome do filme é o nome do primeiro vilão de uma gigantesca galeria que há-de vir, Dr. Julius No, e ainda bem que cedo nos informam sobre o seu ascendente familiar pois, não fosse isso (e a posterior explicação do mesmo sobre os seus pais) e nem as roupas super estilizadas que Joseph Wiseman usava o identificariam como chinês… Era o que se podia arranjar à altura.

Espiões e Sex Symbols? Sucesso garantido.

Foi também em Dr. No que surgiu uma das mais icónicas Bond Girls de sempre (bem, bastava-lhe ser a primeira mas não terá sido isso certamente a garantir-lhe o estatuto, além do mais, em verdadeira justiça, a primeira conquista de Bond no filme terá sido Miss Taro), Honey Rider, representada pela actriz Ursula Andress, sex symbol dos anos 60. Mais um argumento de peso para o sucesso comercial do filme.

Ursula Andress como Honey Rider

O sucesso comercial não significou porém a aceitação da critica. Viviam-se os tempos da Guerra Fria e, dos comentários do Vaticano sobre o “conteúdo sexual” do filme, aos comentários do Kremlin sobre como Bond representava o demónio capitalista, as criticas choviam. É claro que tudo isto ajudava a que o filme fosse ainda mais falado e logo, mais visto.

Sean Connery, para muitos o verdadeiro 007, jogava já todos os seus trunfos para cima da mesa: o charme, a destreza física, a irreverência. Mas tal como os gadgets que ajudaram à fama do personagem (e que neste filme ainda não se deram a brilhar), os tais trunfos seriam inesgotável nos seis filmes em que voltaria à personagem. Estava para ficar.

James Bond, 50 anos depois

50 anos depois, Dr. No continua a ser um bom momento de diversão. Estranho até, que mesmo perante os incríveis penteados e a frenética forma de dançar (sim, a acção decorre na Jamaica, era impensável não haver cenas de dança), não me tenha ocorrido a imagem de filme datado, como tantas vezes acontece ao rever filmes antigos.

Definitivamente, uma saga a rever do principio ao… Bem, continua no próximo filme.

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