Escreve o João Miguel Tavares na última página do jornal Público de hoje que:

os momentos de histeria via redes sociais seguem sempre a mesma mecânica:

  1. um tipo qualquer descobre uma coisa na Internet que o irrita;
  2. um grupo de gente identifica-se com esse tipo qualquer e inicia o processo de indignação descontrolada e analfabeta via Facebook em crescendo de idiotia;
  3. outro grupo de gente que não gosta do Facebook reflete sobre as redes sociais e conclui que Mark Zuckerberg é o Anti-Cristo;
  4. um terceiro grupo sublinha a necessidade de preservar o direito de cada um a escrever aquilo que bem lhe apetece;
  5. cinco dias depois, já ninguém se lembra de nada disto.

João Miguel Tavares sobre Henrique Raposo, no Público

Penso que o João Miguel Tavares se esqueceu de um 6º ponto, que cada vez mais parece estar presente nesta mecânica sobre a qual escreve:

6. Uma ou duas semanas depois, um tipo qualquer que não tem sobre o que escrever, debita umas quantas patacoadas na última página de um jornal, contrariando a sua própria teoria de que passado cinco dias sobre um qualquer caso falado na Internet, já ninguém se lembra disso.

Meu caro João Miguel Tavares, a HRS (História das Redes Sociais) e de forma mais abrangente, a história da Internet, diz que esta não esquece. Não esquece por exemplo, “parolos que debitaram parolices” sobre as redes sociais.

Outra coisa que, sinceramente, eu não esquecerei tão cedo, é o facto de tão veementemente o João Miguel Tavares defender um estilo que cruze “biografia com história, antropologia e sociologia” contendo uma “inventividade, um arrojo interpretativo”.

Talvez seja má interpretação minha, talvez desconhecimento de causa (a única antropologia que estudei depois da básica no ensino secundário foi Antropologia do Ciberespaço na faculdade e confesso, não fiquei o maior fã) mas tinha a ideia de que um relato biográfico, histórico e antropológico se devia cingir mais a factos do que a “invenções”.

Vou no entanto assumir que o João Miguel Tavares se refere à inventividade da Antropologia do mesmo modo que se referiu Jean Segata (não fiquei fã mas não quer dizer que não tenha estado com atenção às aulas), ou seja, como uma “capacidade de criar mundos” que, na minha humilde opinião, é o que o Henrique Raposo parece ter feito.

Tirando isto, amigos como dantes.

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