Já há pela web uma série de reviews ao restaurante Sofisticato mas mais uma não faz mal e além do mais todas as que por ai aparecem referem as pizzas. Fica a nota: Não há pizzas na actual ementa do Sofisticato. Não há nem fazem falta. Mas isso mais adiante.

Sofisticato. Em Santos. E sim, é sofisticado. Basta passar à porta para perceber mas assim que se passa “pela” porta acabam-se as dúvidas caso existam. Recebidos à chegada pela encantadora Sara e pelo não menos simpático Samuel, é-nos indicada a nossa mesa. Foi reservada a de canto ao fundo da sala. Boa escolha para uma noite descontraída e disponível.

Restaurante SofisticatoA sala só por si é um luxo. Um ambiente cosy, moderno, linhas direitas com toques de dourado a darem a pitada de classy que a casa inspira. As vigas de ferro à mostra são colmatadas com meia pintura a roxo mostrando uma robustez com gosto. As mesas são cuidadosamente apresentadas, o padrão da toalha batendo com o padrão do guardanapo e que prazer é fugir ao guardanapo branco. Nada contra é certo mas, uma cor, um padrão, é sempre bom para variar. Aqui foi.

A ementa é-nos apresentada numa moldura dourada. Os luxos não devem ser modestos. E a sofisticação com classe é um luxo a merecer nada menos que uma moldura dourada. Outra moldura vem à mesa com a carta de vinhos. Uma nota para esta onde maioritariamente se apresentam vinhos italianos sendo de contar com dois ou três portugueses e duas escolhas a copo (uma de tinto e uma de branco) que não constam da carta. Não será porém preocupante pois em caso de desconhecimento a explicação e conselho de qual o melhor vinho para acompanhar determinado prato é prontamente dada.

Para a mesa o azeite balsâmico e o pão para entreter mas mesmo sem ele ficaríamos contentes. Guloso por demais, valeu o rápido serviço ou mais teria sido comido o que roubava espaço ao prazer das iguarias por vir.

De entrada um Carpaccio dello Chef, finas fatias de novilho cru, com pequenas lascas de cogumelos frescos, queijo parmesão, cortes de aipo e molho de mostarda em grão. Acreditem, entendidos ou não, deixem lá a rúcula para os coelhos. Entre o aipo e a mostarda venha o diabo e escolha. Uma combinação de outro mundo.

Para a mesa vieram também as Polpette di Parmigiano e antes que as apresentem digo-vos já que só por si, estas bolinhas davam uma excelente refeição. São umas almôndegas, de bom tamanho, panadas, de queijo fumado, queijo parmesão e fiambre. Em dose grande para entrada, estas densas iguarias são de um ligeiro picante (dever-se-à ao queijo fumado) que vai tomando conta do paladar aos poucos. Tal como referi atrás, só por si, uma refeição.

A cada prato entrado a apresentação devida e o cruzar de conversas é constante. Quer a Sara quer o Samuel são bons conversadores e com noção dos timings. A casa é evidenciada mas acima de tudo fala-se da experiência da mesa, do comer, do beber e do estar.

Eis os pratos principais. Risotto Verde. De grão graúdo com espargos silvestres e espinafres, alho francês em boa dose e um toque de manjericão. Verde sem qualquer dúvida. Consistência ideal, o prato mais não mostra porque risotto é risotto. Muito bom e fica a dica: Um só toque de decoração. Não distrai do conteúdo e ajuda aos olhos que como sabemos, também comem.

No SofisticatoE é chegada a vez do Spaghetti Neri Alla Astice que é como quem diz, um prato de esparguete negro, meio lavagante aberto e com casca, algumas gambas (estas descascadas como pede o bom senso), boa dosagem de ameijoas frescas e limpas e muito tomate cherry, flambeado em brandy e vinho branco. A experiência do marisco com a massa é, infelizmente, pouco usual por terras lusas mas, tal como nos disse o Chef, Alessio Carrer, não é fácil cozinhar esta mistura, tem “segreto“. E uma coisa é certa, funciona. E de que maneira.

Infelizmente era o único a beber (entenda-se beber como beber e não provar que foi o que fez a Susana) e seria quase sacrilégio pedir uma garrafa de um qualquer dos italianos da carta e deixar por meio (o quente da noite não chamava a grande aventuras etílicas) e assim sendo optei pelas sugestões do copo sendo que provei um Fiuza 3 Castas para o branco e um Quinta da Alorna para o tinto. Acompanharam devidamente sem um qualquer encanto especial mas seria esperado. A refeição pedia algo mais no liquido e garantidamente a próxima visita ao Sofisticato vai proporcionar tal momento.

Para sobremesa, porque apesar de satisfeito uma refeição deste calibre não podia fechar sem uma sobremesa, a escolha recaiu sobre a Panna Cotta com molho de frutos vermelhos. De entre as opções a mais leve ainda que havia por lá uns pêssegos que ficaram a tilintar mas que da próxima não escapam. A Panna Cotta estava especialmente boa, com uma textura e densidade que há muito não provava em tal doce e completamente em sintonia com a espessura do molho.

A refeição terminou como de costume com um café e um garoto que, não vindo tão claro como o requerido, pela excelência do serviço, simpatia e qualidade da comida, não mereceu novo pedido. A acompanhar dois cálices de Limoncello, oferta da casa, para complementar o gostinho a Itália.

Resumindo, a experiência no Sofisticato foi verdadeiramente boa. A disponibilidade da casa serviu para criar relação o que é particularmente interessante neste tipo de restaurantes em que, com alguma familiaridade se descobrem facilmente pérolas escondidas da carta. A sugerir e voltar garantidamente.

Restaurante Sofisticato
Tipo de cozinha: Italiana / Toque de autor
Horário: De terça a quinta e Domingo, das 18:30 às 23:00 – Sexta e Sábado, das 18:30 às 24:00
Preço médio: 35€
Morada: Rua São João da Mata 27, 1200-846 LISBOA
Telefone: +351 213 965 377
Pagamento: Numerário / Cartões

Centro Comercial Amoreiras. Final de tarde de uma qualquer Segunda-feira. Piso 2, loja 2005, Sapataria Jandaia. Mesmo sem ver nada de particularmente interessante à primeira olhada na montra, resolvi entrar e tentar a sorte. Esta foi a sapataria (ainda que na Avenida da Igreja) onde durante muitos anos comprei os meus sapatos. Quem me diria a mim se não encontrava ali novamente consolo para os meus pés?

Nova olhada e na montra lá estava um par de sapatos que me agradava. Uma marca italiana de que não me lembro o nome e um preço razoável entre os 120 e os 130 euros. Pergunto à senhora que me atende se tem aquele modelo no numero 41. Diz que sim, convida a sentar e lá vai ela em busca do dito cujo.

Volta, traz os sapatos, eu experimento e comento o facto de estar já habituado aos meios-números dos sapatos americanos. Dava jeito um 41,5. Diz-me a senhora que os sapatos italianos também existem em meios-números. Infelizmente não naquele modelo em particular. Só 41 ou 42.

Estava decidido. Seria o 41. Só um pequeno detalhe. Diga-me por favor – peço eu com o tal direito de todo o Cliente – mas arranja-me este modelo com pele normal, brilhante? É que o modelo que tem na montra tem pele lisa, brilhante e o que me trouxe tem uma textura um pouco diferente e é baço.

“Esses são brilhantes” – responde a senhora. Desculpe? Como diz que disse? Não. Estes são baços. Brilhantes são os outros. “Não” – volta a senhora a replicar – “esses são brilhantes. A questão é que esses são 41 e os que estão na montra são 39.” Surreal. Kafka voltou à terra e encarnou uma vendedora de sapatos da Jandaia nas Amoreiras.

Explico à senhora que o facto de um sapato ser 39 e o outro ser 41 não terá nada a ver com o facto de um ser preto liso e brilhante e outro ser preto texturado e baço. “É da luz” – diz a senhora prontamente – “pois esse par baço que eu trouxe agora já teve muito tempo na montra, muitos meses, e ficou baço. Esse sapato que está na montra foi para lá agora e ainda está brilhante.” Como rebater tal justificação cientifica? Como se não bastasse, para terminar por ali tal esgrimir de argumentos, colmata a senhora a conversa (pensava ela) com: “Olhe que eu sei do que estou a falar. Já estou nisto há 9 anos”. Estava a pedir por ela certo? Pois que eu já calço sapatos vai para mais de 30…

“Pois então não. Este modelo não tenho com brilho. Posso ver se tenho em alguma outra loja.” Como é que diz que disse? Se tem em alguma outra loja? O quê? Sapatos iguais numero 41 mas que ainda não tenham apanhado com a luz da montra e como tal, que estejam brilhantes? Não havia. A senhora confirmou lá no seu computador e sapatos daquele modelo, numero 41, que ainda brilhassem, não havia em mais lado nenhum

Garantidamente, e só por piada confesso, amanhã irei visitar outras Jandaias por Lisboa. Tenho vontade de contar a história, sentir as reacções…

Quase 20 anos depois de Basic Instinct (Instinto Fatal por cá e Instinto Selvagem por terras de Vera Cruz), eis que Sharon Stone diz ao Mundo “Tenho 50 anos e depois?“.

Sharon Stone na capa da Paris Match

J’ai 50 ans, et alors! é a frase de capa do mais recente numero da revista Paris Match onde Sharon Stone se despe de preconceitos e diz não se importar em ser fotografada nua desde que sejam fotografias artísticas. E diga-se, estas são. Corpetes e outra lingerie preta, stilettos nos pés e poses dignas de qualquer revista masculina que se preze (Playboy Portugal, atentai à produção simples e com tanta, tanta classe) são o appetizer para ficarmos a saber que Sharon Stone, antes do cruzar de pernas mais impressionante do cinema do final do século passado, também foi empregada do McDonald’s, estudou Direito mas formou-se em Artes.

Sharon Stone topless na capa da Paris Match Sharon Stone topless na capa da Paris Match 2Sharon Stone topless na capa da Paris Match 3

É claro que há ainda muitas mais coisas na entrevista que a actriz dá em Venice Beach (como refere o autor da entrevista, não sendo numa qualquer mansão Hollywoodesca não deixa ainda assim de ser num local de referência tal como o mostram as obras de Steinbeck ou mesmo Hemingway) mas todos a força das imagens e quando a modelo faz parte do imaginário de meio mundo (sim, conto também com algumas mulheres), é sucesso garantido.

Fim de tarde de Domingo. A ideia de ir conhecer A Taberna Ideal já cá morava e esta parecia ser uma boa oportunidade. Uma taberna, uma verdadeira taberna era o melhor que poderia acontecer aos comensais que acabavam de ter uma muito má experiência num exemplo de sucesso na restauração Lisboeta mas sobre esse assunto falará quando entender o meu amigo Ricardo. Hoje aqui, é A Taberna Ideal a estrela. Bem, não à Estrela mas em Santos (desculpem o trocadilho mas estava mesmo aqui à mão).

A nossa mesaChegados à Rua da Esperança 112 vimos de imediato que a casa estava já quase cheia. Desde logo bom indicador. Domingo de Agosto em Lisboa e restaurante cheio ou só de fama ou a comida tem mesmo que ser boa.

Fomos recebidos à porta pela Tânia a quem explicamos o infortúnio de não termos reserva (ficamos assim: se telefonarem para lá e vos atender o voice mail, não desistam, liguem novamente) e que de imediato se prontificou a ver se ainda por lá havia um cantinho para nós. Um chega daqui aperta dali, por nós sem problema, ficamos na mesa do canto. Era para dois mas com boa vontade, bom petisco e bom vinho cabem quatro à vontadinha.

A Taberna Ideal não é bem uma taberna no que toca ao seu ambiente e até mesmo estilo visual.

Imaginem-na mais (enquanto lá não vão) como a sala de estar da avó que quando esta vai à missa, o avô transforma em tasca p’rós amigos. Ai está. A Taberna Ideal. Entre mesas e cadeiras sem par, mármores e madeiras bem usadas e faianças entre a flor e o cavalinho eis que nos é apresentada a casa. Na sala temos a Tânia, o Rafael e a Cláudia. Na cozinha, de mão cheia, a Susana. A ementa, bem meus amigos (sim, que ali facilmente nos sentimos em casa de amigos), está frente aos vossos olhos, escrita pelas paredes à vossa volta.

Diz-nos a Tânia que por ali se prega o espírito da partilha e que para quatro à mesa nos aconselha uma tiborna, dois petiscos e dois pratos. Que assim seja então e para entrada venha assim uma tiborna de queijo de cabra com alecrim e mel.Tiborna de queijo de cabra com alecrim e mel Este tão esquecido appetizer (gostaram?) adorado em tempos pelas gentes do Sul do pais apresentou-se aos olhos com a mesma cara que ao paladar: Lindo.

Para a mesa veio ao mesmo tempo, servidos em dose abundante, os ovos mexidos com alheira da casa sobre farta fatia de pão. Saborosos os primeiros e não menos a segunda. Tudo no ponto (e nem sempre é fácil quando se misturam enchidos ao ovo). A mesa ainda sem espaço e já esperavam por nós as migas de camarão. Ainda que não as imagine ao balcão de uma qualquer tasca a acompanhar um copito de 3, aqui ficaram muito, muito bem. Eles estavam mesmo por lá…

Depois chegaram então os pratos principais. O rei da noite dava pelo nome de Cachaço de porco preto com migas de batata. A acompanhar vinha ainda uma salada de alface envinagrada q.b. (que o porco preto tem o seu quê…). Cachaço de porco com migas de batataTudo delicioso. As migas com a textura correcta e a peça de carne a desfazer-se na boca. Dizia-se por ali que o mais provável era pedir segunda dose de tão bom que estava.

O segundo prato foi uma adaptação livre e como tal um pouco mais demorada do pedido original. Ao ver que não havia mais massa fresca foi-nos questionado se estaríamos interessados noutro prato ou na mesma massa com camarões mas deixando a parte da fresca para outro dia. Venha de lá esse esparguete que fica a fresca para a próxima. Ora o esparguete normal tem um tempo de cozedura um pouco (simpático não?) maior do que a massa fresca. Valeu a espera. Cozido al dente, com os camarões descascados, bem salteada e com muita salsa. Uma vez mais, bastante satisfeitos.

Tudo isto foi regado a Quinta de Cabriz Tinto Reserva de 2005. Havia muito por onde escolher no campo vinícola e boa surpresa, muito vinho servido a copo. Venham mais casas Lisboetas a adoptar esta medida que todos nós agradecemos.

As sobremesas

Bolo de Cacau, Crumble de Maçã e Salame de Frutos SecosEstranhávamos não ver por ali qualquer referência às sobremesas. Bem procurávamos e, aparentemente, podíamos continuar a procurar… Uma vez mais a Tânia deu a dica: Crumble de Maçã, Bolo de Cacau ou Salame de Frutos Secos coberto com chocolate derretido (receita da avó, abençoada avó). Qualquer um dos propostos nos fazia pensar que a soma das partes seria algo de quase divinal. Assim foi. Foi-nos proposto uma combinação dos três que de imediato aceitamos e bem-dita a hora. O crocante do Crumble, o suave do cacau e o diferente, muito diferente salame… Fantástico.

A prova dos nove, aquela que já aterroriza algumas casas menos dadas a coisas simples, o garoto muito, muito clarinho, só leite quente com uma gota de café. Eis que chega perfeito à mesa. E não há cá pacotinhos de açúcar que na casa da minha falecida avó também não havia dessas modernices. Uma bonboneira de vidro com açúcar amarelo que também adoça e não faz tanto mal.

Finalizando, A Taberna Ideal fez nessa noite de Domingo novos amigos, daqueles que prometem voltar. E de preferência em breve que ainda lá há muito a experimentar.

Restaurante A Taberna Ideal
Tipo de cozinha: Portuguesa / Petiscos tradicionais com um toque urbano
Horário: De terça a sexta, das 19:00 às 02:00 – Sábado e domingo, das 13:30 às 02:00
Preço médio: 20€
Morada: Rua da Esperança 112-114, 1200-658 LISBOA
Telefone: +351 213 962 744
Pagamento: Numerário / ???