May we live in interesting times dizem para ai que diziam os outros… Maldição chinesa ou premonição de presidente americano, de uma forma ou outra dá ideia de alguma dificuldade, por passar ou ultrapassada… Também os Depeche Mode transmitem esse estar. Mesmo nos seus tempos mais electrónicos (muito de volta neste Sounds of The Universe), nunca deixaram ir para longe a negritude de uma alma humana, conhecedora de sentimentos sublimes no sentido que Dostoievski daria ao termo. Em quantas das suas musicas os fans não viram céus laranja fogo a escurecer lentamente até à tempestade dos dias do fim?

Os próprios membros da banda certamente viram os tais dias do fim em várias ocasiões mas as pessoas tendem a chegar à razão (mesmo que nem sempre o admitam, muitas vezes por uma questão de estilo…) e esta leva-as por vezes a caminhos de devoção a coisas belas (quantas vezes lembro Nick Cave e o seu No More Shall We Part).  Sounds of The Universe é um desses caminhos.

Ainda que se esperem belas e até angelicais paisagens quando na direcção de uma qualquer luz, Sounds of The Universe coloca-nos muitas vezes em caminhos desertos de gente, entre fabricas abandonadas com cheiro a ferrugem no ar. Lembram-se da capa de “Amonia Avenue” dos Alan Parsons Project? Coloquem lá o ferreiro da capa de “Construction Time Again” e toquem as cornetas de “Music for the Masses“. É esta a paisagem…

O novo álbum dos Depeche Mode há muito que era esperado pelos fans. A espera tornou-se mais difícil após ser publico o single “Wrong” que deixava antever uns Depeche Mode como não se viam há já uns anos, uns Depeche Mode back to origins.

Depeche Mode - Sounds of The Universe

“Sounds of The Universe”

In Chains” é a musica que abre o álbum. Preparem os ouvidos. Os primeiros segundos são por demais estridentes. Num pequeno crescendo até ao constante, imagina-se a central eléctrica quase, quase a rebentar. Não rebenta. Volta no tempo e abre-se o pano. O concerto vai começar. David Gahan esmera-se na voz.

E há mais assim pelo disco fora. “Hole to Feed” e “Wrong” estão bem posicionadas para chocar com quem é preciso, para dizer a quem ouve que estes tipos que aqui andam há já um bom punhado de anos, ainda estão para se fazer ouvir.

Mais lá para a frente “Sounds of The Universe” leva-nos noutros passeios com “Little Soul” ou “In Sympathy“. Diferentes mas qualquer uma delas prontas para nos deixar naquele estagio em que já olhamos pela janela e contamos as estrelas ou pelo menos ficamos à espera que elas nos concedam um qualquer desejo…

Depois vem “Peace“. Que dizer sobre “Peace“? Que é um hino a electrónica dos anos 80? “There is no space to regrets… Just look at me. Peace will come to me…” Ele lá tem a sua razão. E com esta musica é fácil que isso aconteça. Um delicioso regresso ao passado.

Com “Perfect” ficamos na dúvida sobre para onde irá a musica. Depois começamos a prestar atenção à letra e entendemos. Já vos disse que gosto de boa ficção cientifica?

Desde “Behind the Wheel” que Depeche Mode pode assumidamente tomar o volante em qualquer road trip. Seja numa atitude de introspecção ou até com um espírito de search and destroy (quanto do romantismo gótico se pode encontrar neste trio?). “Miles Away” também nos pode acompanhar na estrada…

Jezebel” leva a mente a viajar num segundo até Somebody… E depois volta. Martin Gore a cantar é (quase) sempre uma experiência única e aqui, para variar, ele está muito bem.

“Sounds of The Universe” fecha (e não termina) com um som próprio. “Corrupt“. Tirem-lhe as vozes, aumentem o volume e até pode bem passar por banda sonora de uma qualquer cena de jogo e morte violenta num casino de Vegas. Com tudo o que tem, é provocante e funciona.

Passei por cima de “Fragile Tension“, “Come Back” e “Spacewalker” propositadamente. Não tenho ainda nada para vos escrever sobre as ditas… Acontece.

Certo. Quem não gosta de Depeche Mode não vai passar a gostar agora. Um dos problemas de uma certa coerência (ainda que tão estranha quando falamos dos Depeche Mode) é chegar aquele ponto em que tudo o que se faz, deixa claro quem o fez. Os Depeche Mode já nos habituaram a que cada um dos seus trabalhos seja um trabalho Depeche Mode.

Mais sobre Sounds of The Universe dentro de momentos.

8 thoughts on “Depeche Mode Sounds of The Universe

  1. É engraçado. Ainda não ouvi o disco – ouvi o single e gostei bastante – mas tenho ouvido dizer que os fãs não andam muito satisfeitos…

    Parece que não é o teu caso. Ainda bem.

  2. Boas Filipe. Pois lá está. 30 anos de carreira dá nisso. Tens fãs que os conhecem há 10 anos e fãs que os conhecem há 20 e por ai adiante… De entre os que só os conheceram com o Playing the Angel são muitos os que não gostam do Music for the masses…

  3. Claro…

    Eu, que não sou propriamente um grande fã mas gosto de algumas coisas deles, por exemplo, gosto sobretudo do Ultra. Claro que o Violator e o Songs of Faith and Devotion também são trabalhos muito bons… mas aquela sujidade toda de “Barrel of a Gun” e afins(um pouco no estilo do novo single, diga-se) agrada-me bastante.

    De resto, eu até gosto do Exciter, aquele álbum de que ninguém gosta. Depois safo-me com o Black Celebration e pouco mais…

  4. claro esta optiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimo mas que poderia estar melhor isso sim

  5. Estamos lá batidos em Julho (com dto a CD autografado) e o resto é conversa!!!

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